segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Honra

Conforme as guerras e os rumores dos conflitos se espalham, em outras cidades chegam exilados e sobreviventes trazendo mais medo e pânico.
Para os civis e legionários que chegam em Belarum, Lapidatus deixa bem claro as regras para entrar e permanecer na cidade. Os sacerdotes Crestanos entram por outros meios e procuram os seus, que os avisam da política local.
A contragosto, os sacerdotes exilados chegam e vão se estabelecendo, sabendo que nada poderiam fazer senão viver em clausura, enquanto a cidade se preparava para o solstício de inverno, até a chegada recente de mais um sacerdote exilado.
- Meus irmãos, eu me junto a vós nesse momento de angústia e provação com boas novas! Eu vi, bem próximo dessa vila dominada pelos demônios, o santo exército enviado pelo Imperador para varrer toda essa idolatria, feitiçaria e orgia profana! Regozijemos, pois em breve Belarum será liberta!
- Oh não! Isso é terrível! Assim que o governador ver a chegada do Exército Romano, nós seremos massacrados!
- Ânimo, meus irmãos! Pois é melhor entregar a vida por Deus e viver no Paraíso do que viver por este mundo e morrer no Inferno.
- Tu deves ter feito teus votos recentemente. Teu entusiasmo é compreensível, mas infelizmente não terás oportunidade de ter a mesma experiência que nós.
- Ah, meus pobres irmãos! Eu percebo que vossa fé esfriou devido a essa convivência com os hereges. Mas vós vereis que Crestos é o mesmo hoje, ontem e sempre!
- Tolo! Quer nos ensinar o que sabemos de cor? Tu ainda cheira a leite do seminário e quer discutir teologia? Saiba então, pobre novato, que muito do que se ensina vem da boca dos homens, não de Deus.
- Isso é heresia! A palavra de Deus é uma só!
- Se isso fosse verdade, as Igrejas do Ocidente e do Oriente não estariam em guerra.
- Mentiras espalhadas pelo maligno! Certamente as poucas igrejas rebeldes existentes foram dominadas por um espírito imundo!
- Tolo novato! Se as igrejas estão tão fracas que um espírito imundo pode se apossar delas, como tu podes saber qual é de Deus e qual é de Satan?
O diálogo é interrompido pelo barulho dos vitrais das janelas se quebrando e com flechas incendiárias se cravando no assoalho de madeira. Alguns sacerdotes correm em busca de água, outros tentam fugir da igreja. O poço da igreja está seco e a porta está bloqueada.
Mais uma saraivada de flechas incendiárias entram pelas janelas da igreja, acertam bancos, cortinas e alguns sacerdotes desafortunados. O fogo se espalha e intensifica, a fumaça começa a preencher o altar, fazendo alguns sacerdotes tentarem uma fuga pela torre do sino.
A escada que sobe pela torre até o sino é pequena e frágil, logo cede pelo peso e calor, isolando alguns na pequena campânula onde fica o sino e jogando outros de volta à fornalha.
O fogo domina a igreja, os gritos sobem com a fumaça, a torre do sino cai com o calor e então silêncio. Lapidatus envia alguns legionários até a ruína da igreja, com ordens de se certificarem que todos morreram, de uma forma ou outra.
Conforme chega a manhã, soam as trombetas do Exército Romano anunciando sua chegada. Lapidatus dá suas últimas ordens e responde com o toque indicando estado de atenção. Não é muito, mas a cidade sabe que deve se preparar para lutar e o Exército Romano entende que será tratado como invasor.
Lapidatus está feliz e tranqüilo. A manhã é uma boa hora de desafiar o destino.

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