quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Lapidatus, comandante e governador

Lapidatus chega na vila em Belarum, uma vila pouco urbanizada, mas com extensos terrenos para plantio. De todo lado da estrada, os campos se perdem de vista e os camponeses olhavam com curiosidade para ele.
Lapidatus só se sentiu mais à vontade ao entrar na fortificação onde se estabeleceu a coorte. Cobrindo-se precariamente com uma manta, mostrou suas ordens ao guarda do portão que, assustado, chamou o oficial do dia.
- Ave, comandante Lapidatus. Permita-me conduzi-lo ao setor dos oficiais, onde o senhor poderá trocar teu uniforme por outro mais apropriado.
No salão reservado aos oficiais, mais quente graças à calefação e uma lareira, Lapidatus pode deixar de lado a manta e refazer as forças com um bom vinho. O oficial do dia trouxe, logo a seguir, o uniforme de comandante que havia preparado para ele.
Lapidatus estranha as duas peças, uma que encobre dos ombros até os quadris e outra que encobre dos quadris até a canela.
- Esse uniforme é bem diferente. Será que nas outras coortes longe de Roma também tem diferenças?
- Eu creio que sim, comandante. Os primeiros Romanos que aqui chegaram adaptaram vestes locais ao uniforme, por causa de nosso clima mais frio. Esta peça que cobre o tronco e os braços é chamada de camisa. A peça que cobre o torso até as canelas é chamada de calça. Também forma substituídas as alparcatas por botas.
- Confortáveis e elásticas. Houve mais alguma adaptação?
- Sim, senhor. As lanças são mais compridas e pesadas, com uma ponta curta terminada em seta. As espadas são feitas de ferro, com lados que cortam.
- Eu gostei do cabo feito em osso. Vejamos agora meus legionários.
Lapidatus veste o elmo e as botas, enquanto o oficial do dia toca um sino para chamar todos os legionários. Assim que Lapidatus sai na varanda que tem na frente do setor dos oficiais, os legionários estão prontos, dispostos em cinco filas encabeçadas pelos seus respectivos centuriões.
- Saudações, legionários. A partir de hoje eu sou vosso comandante. Eu vejo que muitos são nascidos aqui, mas eu vos digo que cada um tem a mesma possibilidade que eu de fazer careira na Legião Romana. Eu nasci em Dácia, Macedônia e cheguei aqui. Sirvam bem a Roma, honre vossas espadas e nós conquistaremos muitos méritos.
Muitos brados, muitas salvas. Lapidatus então cumprimenta um a um de seus legionários, fazendo questão de saber o nome e onde nasceu. Em seguida, conferiu os mantimentos, os recursos, os armamentos e a situação da fortaleza.
Lapidatus fica satisfeito com a parte militar, a parte mais fácil. Deixa o comando ao oficial do dia e se dirige aos prédios da administração civil.
Lapidatus se esforça para esconder a aversão e o nojo que ele nutre contra essa classe de gente, funcionários públicos de carreira, cheios de fanatismo burocrático.
Na entrada, Lapidatus apresenta o edital ao funcionário que o recebe com indiferença e desânimo, mostrando que é recíproco o sentimento.
- Ave, governador Lapidatus. O senhor pode contar conosco. Todos os funcionários da administração são Romanos e seguem carreira. Eu vou apresentar ao senhor teus secretários.
Lapidatus passeia por várias salas e conhece diversos funcionários, cada um encarregado de uma parte da vida da comunidade. Um secretário de finanças, de habitação, de estradas, de construções, da semeadura, da colheita, da estocagem e assim por diante. O dia passa e Lapidatus se esgota, o que o faz deixar para o dia seguinte a parte mais delicada que é quebrar o muro que existe entre ele e os habitantes locais.

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