quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os conflitos se expandem

Os conflitos entre o Império e governantes provincianos e entre a Igreja Romana e igrejas locais nem sempre são contendidos por meio de palavras ásperas ou excomunhões recíprocas. Em algumas cidades, as disputas chegavam a serem resolvidas com agressões mais físicas. Os habitantes eram levados ora a apoiar um lado, ora outro, em troca de mais pão. Em alguns casos, os habitantes formavam pequenas milícias que, sob as ordens do governante ou do bispo, atacavam de forma organizada e metódica ou a postos militares ou a templos religiosos.
No templo de Ishtar, em Esmirna, Roe organizou com os homens do templo um contingente para vigiar e proteger o templo. Na maior parte das vezes, as tentativas de invasão eram facilmente frustradas, as milícias não passavam de três pessoas que rapidamente se dispersavam quando percebiam que a resistência no templo era grande. Isso mesmo assim prejudicava o serviço do templo, que estava ficando abandonado por causa do medo das pessoas e muitas cerimônias não foram realizadas por estas circunstâncias.
A intuição de Roe disparou naquela tarde e ordenou a todos os servos e servas do templo para pegar em armas e ficarem na porta da frente. Ele correu até o quarto de Miriam e a conduziu pela saída dos fundos.
- Onde está Magdala?
- Ela foi ao mercado para comprar vinho.
- Eu não poderei ajudá-la, mas tu deves fugir. Vá até Tamar e se refugie no templo com Ceres.
Roe montou Miriam em um camelo e o colocou em disparada. Seguiu então para a porta, tomando em mãos a sua velha e preciosa espada que o acompanhou por tantas batalhas, pronto para enfrentar seu destino.
Ao se juntar aos demais servos do templo, se deparou com uma milícia de vinte pessoas reforçada com o destacamento de uma centúria de legionários. O centurião que devia estar organizando esse ataque proferiu a ordem que supostamente veio cumprir, como se fosse uma sentença de condenação.
- Por ordem do governador Plínio e do bispo Teodósio, vosso templo cessará suas atividades para que aqui seja instalada uma Igreja Romana. Vós deveis pegar vossos pertences e desocuparem este templo ou enfrentareis as conseqüências.
O embate inevitável se inicia e Roe sabe que não há chances de vitória. Ele é o único acostumado ao campo de batalha e servos armados só assustam ladrões de galinhas. Roe bem que gostaria de ser um Leônidas e morrer em batalha em nome de um propósito maior, mas a mulher que ele ama está em terras muito distantes.
Os milicianos não são um oponente, aqueles que ousam enfrentá-lo caem feito moscas. Os legionários são outro nível e compensam o esforço.
O gosto pela luta e a emoção de estar de novo em campo de batalha faz Roe esquecer de sua Ketar e dos Deuses por um instante. Nesse precioso instante, o centurião trespassa o corpo de Roe com sua lança. Uma voz feminina doce e suave dá a despedida da Vida ao velho soldado.
- Como ousa duvidar de meu amor por ti? O amor nunca se divide ou diminui, apenas multiplica e aumenta. Adeus, Roe, nos vemos na Terra da Juventude.
O sangue se espalha pela rua, correndo dos corpos caídos. Os legionários entram no templo e iniciam a reformá-lo, quebrando todas as estátuas e pilhando seus tesouros. O telhado é removido para dar lugar à abóbada e à torre do sino. Ainda com os legionários ocupados com o saque do templo, chegam três sacerdotes Crestanos, que vieram para purificar e consagrar o local, para poderem ali ministrarem, dando fim a qualquer indício de seu propósito original.

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