segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os Deuses do campo

Lapidatus acorda bem cedo e sai do dormitório dos oficiais para participar da refeição matinal comunitária junto com os legionários, um hábito que ele adquiriu quando era legionário e admirava os oficiais que dispensavam o tratamento especial.
Depois, pediu ao legionário nativo mais jovem que encontrou, para conhecer os pontos principais da vila, os hábitos, os costumes, as tradições e crenças do povo.
A vila não tem muitas construções, a maior parte eram prédios e marcos romanos. Apenas as casas de fazenda mantêm as características peculiares.
As ferramentas têm ferro, que estava mais bem trabalhado graças às forjas romanas, mas o equipamento continuava bem rústico.
A plantação é separada em colunas, cada qual com uma hortaliça. Terrenos mais extensos são preparados para o plantio de frutas, mas os campos de trigo são maiores.
Os frutos são colhidos e postos em cestos feitos de palha de faia, sendo estocados em celeiros reforçados para resistir ao frio e protegidos dos ataques de animais com maços de açafrão e caledônia.
- estas coisas teu povo sempre fez ou aprenderam com os Romanos?
- Muitas destas coisas nossos velhos nos ensinaram, outras aprendemos com os povos vizinhos, mas os Romanos também trouxeram suas experiências.
- Os Romanos tiveram suas origens em povos que viveram como o teu, mas teu povo acredita em quais Deuses?
- Os velhos nos contam de uma época muito mais fria que hoje, quando nós vivíamos como feras. Então os Deuses desceram do monte Carpus, nos juntaram, nos ensinaram a lavrar a terra e a criar gado. Eles nos ensinaram a importância de velar os que partem, de libertar a alma do corpo na pira e de honrar anualmente a memória de nossos ancestrais. Os Deuses se misturaram a nós e nos deram nossos reis e sacerdotisas, assim surgiu nosso povo.
- O que aconteceu com a chegada dos Romanos?
- Os velhos nos dizem que isto estava predito, mas que mesmo assim nós tínhamos que provar nossa honra e a honra dos Romanos.
- Então não foi difícil ao seu povo se adaptar ao modo Romano.
- No início não, até a chegada da Igreja de Roma. Os sacerdotes chegaram, se instalaram e até mostraram simpatia, ajudando os órfãos e pobres. Conforme o tempo passou, a Igreja cresceu e foi se intrometendo em nossos costumes e cerimônias. O governador anterior ao senhor enfrentou uma rebelião de meu povo, ao tentar nos fazer adorar ao Deus da Igreja Romana, chamando os nossos Deuses de espíritos malignos.
- Igreja de Roma? Eu nunca ouvi falar de tal Igreja nem da obrigação em adorar só um Deus. Leve-me a tal Igreja.
O legionário levou Lapidatus até a igreja, toda feita em pedra esculpida, cheia de adornos e imagens desconhecidas por ele. Por dentro, a igreja parecia muito com os templos mithraicos, por causa do piso e bancos de madeira. Um sujeito franzino, em uma túnica escura, se aproxima para recebê-lo.
- A paz do Senhor Yeshu.
Lapidatus seque se move. Em sua armadura de comandante e usando o medalhão de governador, deu uma boa volta pela igreja, deteve-se no altar e olhou enigmaticamente para a imagem de Yeshu pendurado na cruz.
- Sabe, jovem Catus? Eu estive em várias cidades, conheci vários templos, vários sacerdotes, vários Deuses. Este templo é o primeiro que eu conheço que não sinto a presença de Deus algum. Vai ver que é por isso que não sinto qualquer santidade nos homens que ocupam este lugar, apenas trapaça e hipocrisia. Venha, vamos fazer o primeiro discurso público.
Lapidatus saiu e, ao passar pelo portal da igreja, fechou a porta de madeira que separava o altar da rua, mostrando suas intenções. Conforme se aproximava do grande auditório que ficava na praça central da vila, ele e o legionário convidavam a todos, civis e militares, para ouvirem o discurso.
No auditório, as pessoas foram afluindo, curiosas para ouvir o que o novo governador tinha a dizer, muito embora os mais velhos mostrassem certo receio.
- Povo de Belarum! Eu aqui vim, como estrangeiro, por ordem de César, mas quero aqui ficar, como convidado, por vossas vontades. Assim como vós, eu honro aos meus ancestrais, celebro as estações e louvo aos Deuses do campo. Assim como vós, eu prezo a tradição, os costumes e a vossa cultura. Assim como vós, todas estas coisas eu quero preservar para aqueles que herdarão essa terra, para que possam se orgulhar de onde nasceram. A custo de minha posição ou de minha vida, eu me disponho a lutar contra qualquer um que ameace aquilo que é mais valioso para esta comunidade, seja este um rei, um César ou Deus!
O povo aplaude e faz um grande clamor. Os sacerdotes Crestanos, na igreja, sentem seu prestígio ameaçado e começam tramar contra Lapidatus. O jovem Catus, ao seu lado, disse extasiado, um segredo local.
- Sabe, senhor? O senhor escolheu o melhor dia para teu discurso.
- E porque, Catus?
- Hoje meu povo comemora a chegada dos Deuses e o fim do Inverno.

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