sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Domiciano se torna comandante

Vespasiano chega em Nicius e trata de melhorar as condições de sua estadia. Ele calculou que o tempo necessário para chegar em Nicius seria o suficiente para que seus mensageiros conseguissem convocar os centuriões e que estes chegariam junto ou antes que o comandante Derico.
No final da tarde, o comandante Derico chega com uma pequena comitiva na coorte em Nicius e se apresenta com a ordem de César, tendo ao seu lado o centurião Silvano e o sargento Domiciano. O legionário, previamente instruído, conduz o trio a uma sala de espera, para então avisar por meio de seus superiores, ao César da chegada do comandante.
Vespasiano estava farto das desculpas dos centuriões e os mandou para o carrasco, colocando todas as tropas sob o comando dos centuriões que ele conhecia e confiava. Ele mandou entrar a Derico e não fez muita questão de seus acompanhantes.
- Muito bem, Derico, eu ouvi teus centuriões e agora quero saber de ti a razão de teus fracassos.
- Meu Divino César, apesar de estar batalhando ferozmente contra os Godos, eu mantinha as demais frentes com instruções precisas e se ali não houve vitória foi por indisciplina dos centuriões.
- Tu estás tentando te esquivar de tua responsabilidade? Os centuriões foram nomeados por ti e, se estes eram indisciplinados, tu os deveria substituir.
- Meu Divino César, eis que comigo estão o centurião Silvano e o sargento Marco. Estes receberam as mesmas instruções e foram vitoriosos, o que demonstra minha capacidade. Se eu tivesse substituído os centuriões toda vez que houvesse derrota o moral das tropas cairia e eu perderia a linha de comando.
- Eu ouvi alguns boatos sobre esses soldados. Centurião Silvano, se o sargento Marco não fosse satisfatório em suas funções, o que tu farias?
- Ele seria imediatamente rebaixado.
- E se as tropas não trabalhassem com o novo sargento ou mostrassem falhas na disciplina?
- Todos enfrentariam a corte marcial e seriam punidos conforme a regra.
- Sargento Marco, o que tu farias se as condições no campo de batalha mostrassem que a estratégia do centurião Silvano são ineficazes?
- Conforme a regra, eu teria que procurar a solução que melhor se encaixasse nas condições do campo de batalha e enviaria um relatório ao centurião Silvano.
- Então, comandante Derico, teus subordinados conhecem melhor do ofício militar que tu e teus centuriões? Aqui tens tuas ordens. Dirija-se ao patíbulo e mostre que realmente é um soldado honrado.
O comandante Derico segura com as mãos tremulas a ordem dada por Vespasiano, faz uma misura e se retira da sala. Sem hesitar um instante, Vespasiano promove o centurião Silvano e o sargento Domiciano logo que o comandante Derico sai da sala.
- Muito bem, comandante Silvano e comandante Marco. Vós deves seguir até as oito frentes para tomarem as devidas providências. Nestes pergaminhos estão os relatórios com as condições de cada frente, bem como minha autorização total para utilizarem quaisquer meios e recursos, desde que vós me garantis a vitória. Então leiam e digam-me agora do que vós precisais.
O som seco de um machado vindo do patíbulo faz o comandante Silvano tremer todo, mas o comandante Domiciano não se abala, rapidamente lê os relatórios e esboça uma estratégia.
- Meu Divino César, eu vos peço que espesses uma ordem a todas as frentes para dotarem as alterações nas máquinas de guerra como as que fizemos contra os Godos. Eu vos peço que nos conceda mais três coortes para cada uma das frentes, armadas da mesma forma que estivemos armados contra os Godos. Por fim, eu vos peço que ordene aos centuriões que nomeiem sargentos para conduzirem os pelotões, em grupos de nove e em quatro linhas, com a mesma formação usada contra os Godos.
- E tu achas que a estratégia usada contra os Godos será bem sucedida contra os demais povos pagãos?
- Em termos gerais, sim. Conforme nós estivermos no campo de batalha, nós faremos as adaptações necessárias.
- Excelente! Comandante Marco, tu és um exemplo a todo soldado romano! Deus abençoe tua firmeza e determinação! Avante!
Domiciano faz uma misura e trata de por seus planos em execução, sendo seguido por Silvano, ainda trêmulo.
- Estamos condenados! Nós seremos descartados como o comandante Derico!
- Não, meu colega, apenas Deus pode julgar. Mas quem se arrepende de seus pecados e aceita o Senhor Yeshu Cresto como seu Salvador, não será condenado nem morrerá, pois o Senhor nos garante a Vida Eterna.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Bizâncio derruba Roma

Vespasiano recebe, no palácio imperial do oriente, inúmeros relatórios das vitorias do Exército Romano em espalhar a Igreja de Roma por todo o oriente e além. Mas ele fica mais satisfeito com os relatórios de seus agentes infiltrados nas frentes sob as ordens de Vitélio contando as parcas vitórias e muitas derrotas.
Assim que Vespasiano recebe a confirmação da tomada de Lívia, a cidade no mais extremo oriente, ele envia mensageiros aos senadores e bispos de Roma, com uma mensagem ousada.
Vespasiano César, Imperador da Roma Oriental, saúda aos nobres representantes do povo Romano e os sagrados representantes de Deus.
Eu vos anuncio, sem falsa modéstia e humildade, o completo sucesso na campanha de conquistar os povos pagãos para o Nosso Senhor, ao menos nesta parte oriental. Bizâncio pode se orgulhar de ser a capital da Igreja de Crestos, mas perceber que sua irmã, Roma, ainda está abandonada aos agentes de Satan devido à timidez e à fraqueza de Vitélio César, Imperador da Roma Ocidental.
Por Deus e por Seu Filho, Bizâncio irá marchar até Roma para salvaguardar os santos de Deus, as santas igrejas e todos aqueles que devotam a crença sagrada.
Eu envio a vós a súplica para que nos dêem a permissão e as bênçãos para afastar os que são fracos na fé ou no braço, para que os verdadeiros soldados de Deus levem a Palavra, a Verdade e a Salvação aos povos que ainda resistem nas sombras malignas do paganismo.
Pelo bem de Roma, em nome de Deus, que eu possa ser aclamado por vós como César de todo o Império e possa dar-vos o Reino de Deus que nós desejamos.
Em seguida, envia ordens a todos os comandantes e centuriões que estavam em campanha pelo oriente para que retornem a Bizâncio e se preparem para cercar e invadir Roma. Em algumas semanas, todos os centuriões e comandantes chegaram e acamparam em volta de Bizâncio, aguardando a ordem oficial de Vespasiano, sem questionar, pois sabiam muito bem que podiam ser mortos e substituídos.
Vespasiano olha com satisfação a extensão do seu exército, pronto para realizar o mais mínimo desejo de seu coração. Sem esperar a resposta de Roma, ele sai até a sacada de seu escritório e, entre salvas e aplausos dos legionários, declama sua ordem.
- Soldados de Deus, avante até Roma! Nós vamos ou nos juntar com outros soldados de Deus ou nos bater com os soldados de Satan. Deus esteja conosco e nos abençoe!
Vespasiano marchou e é recebido como verdadeiro César na Macedônia, na Etrúria e em Venetia. Nas portas de Roma, a Guarda Pretoriana traz até ele o humilhado e destronado Vitélio César. Os senadores entregam a ele a coroa e o cetro que antes pertenciam a Vitélio. Os bispos excomungam e decretam nulas todas as unções dadas a Vitélio e confirmam a unção de Deus a Vespasiano como único e legítimo César.
Vespasiano, entusiasmado e inflado por ter sido reconhecido como se julgava merecedor, coloca Vitélio de joelhos e o decapita com seu gládio.
- Que todos vejam e saibam! Deus não aceita fracos, tímidos, inseguros ou hesitantes. Que os povos pagãos tremam, ajoelhem-se e se convertam ao Senhor ou pereçam pela espada!
Vespasiano marcha então em direção à Gália, ordenando a presença do comandante Derico em Nicius, para revisar as estratégias de campanha e exigir resultados positivos em todas as frentes.
Nos territórios Godos conquistados, o comandante Derico recebe a ordem com evidente nervosismo e resolve garantir a saúde de seu pescoço ordenando que o centurião Silvano e o sargento Domiciano o acompanhem.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Batismo de sangue

No dia seguinte, o comandante Derico, juntamente com o centurião Silvano, entrou com o batalhão na floresta cerrada, seguindo a trilha que os novos sargentos indicavam, na formação que Domiciano havia recomendado, usando as máquinas de guerra para remover as árvores, pedras ou rochas que estivessem no caminho.
- O que tu achas da estratégia de Marco, centurião Silvano?
- Eu não vi formação como esta, comandante e receio que essa incursão em grupos de nove, em colunas distantes a nove passos, pode propiciar os ataques de emboscada.
- Eu fico intrigado com o uso das lanças mais curtas e leves nas fileiras secundárias e a batida forte e ritmada dos gládios nos escudos nas fileiras primárias. Como poderemos cercar e surpreender o inimigo fazendo tanto barulho?
- Eu acho que o barulho serve mais para provocar do que assustar. Ele deve estar contando que os rebeldes tentem atacar de surpresa os grupos, para então cercá-los.
- Eu gostei da última recomendação. Ele disse aos legionários que mantivessem a formação em qualquer circunstância.
Distante da conversa entre os superiores, no fronte das primeiras fileiras, Domiciano segue os sinais que ele conhecia, sabendo que era uma questão de tempo antes de ter algum ataque ou de se depararem com um acampamento rebelde.
O soar de um chifre anunciou o ataque esperado e logo a Segunda fileira avança contra os rebeldes, pelos flancos com as lanças, dando à fileira da frente um corredor seguro para avançar contra o bloco central. Domiciano contava com essa formação militar no ataque dos rebeldes, uma vez que eles foram treinados pelo finado centurião Lapidatus.
Uma Segunda carga de rebeldes aparece mais atrás, com as lanças mais longas e pesadas. As colunas recuam para atrair a Segunda carga mais para frente, até que fiquem na mira das máquinas de guerra, que estraçalham a segunda carga.
Assim, palmo a palmo, o exército faz sua incursão até os acampamentos, que são cercados e atacados com as catapultas carregadas com o fogo grego. Mas a preocupação central de Domiciano estava nos Godos e nas estratégias de batalha destes. As pesadas máquinas de guerra fazem um bom trabalho, ampliando a trilha e apoiando a formação, mas limitam muito o alcance e a velocidade da campanha.
Uma saraivada de flechas incendiárias zunem por entre as árvores e acertam com precisão as máquinas de guerra, mostrando a presença de algum exército organizado bem próximo. Uma carga de soldados barbudos, sem uniforme, atacando a coluna romana com machados, sem um foco ou formação indica que, enfim, se combate os Godos. Seguindo as instruções de Domiciano, uma terceira fileira se forma, composta por arqueiros que atingem os soldados mais adiantados e uma quarta fileira se forma por lanceiros que atinge o meio da carga com as lanças mais longas e pesadas.
Depois deste contra ataque, a primeira e Segunda fileiras avançam em formação contra o restante da carga, mas não perseguem os soldados Godos quando estes se dispersam.
Com poucas baixas e perdas materiais, o exército finalmente chega a uma cidade fortificada, sem dúvida construída pelos Godos devido aos inúmeros cadáveres de soldados romanos que enfeitam a paliçada.
Aos poucos, as máquinas de guerra se posicionam e despejam sem misericórdia sua carga letal na cidade fortificada. Com parte da paliçada destruída ou incendiada, os habitantes saem com armas improvisadas para combater os Romanos, sem medo da luta ou da morte.
Contra ancinhos, lanças; contra foices, espadas; contra um ataque feérico e desorganizado, a movimentação fria e cirúrgica; contra homens, mulheres, jovens e crianças, solados forjados e acostumados à batalha. Quando o comandante Derico e o centurião Silvano chegam ao sítio, a cidade fortificada está destruída e tomada, os soldados se divertem com os prisioneiros e repartem o butim.
Domiciano surge do meio do campo de batalha, todo coberto de sangue e exausto, para fazer um pedido inusitado ao comandante, sem ter muita noção do significado de seu ato.
- Meu senhor, nós vencemos por Deus. Eu vos peço que seja erguida uma Igreja Romana nesta cidade e que sobre as ruínas deste povo seja rezada uma missa pela conversão dessas almas perdidas.
- Meu jovem, não apenas isto será feito como também eu te indicarei para a Guarda Pretoriana, para que sua carreira seja um exemplo a todos os que servem a Deus!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Jogos de guerra

O comandante Derico subdivide o enorme batalhão em oito frentes ao entrar na Gália, para que pudesse se infiltrar melhor através das fronteiras, entre os povos pagãos. Chegando em Nicius, as frentes seguiram para Genua, Bergumum, Tullum, Licium, Belarum, Argentum, Belginum e Lugdunum.
Mesmo com um oitavo do que era, o batalhão ainda causa espanto e comoção ao chegar na cidade fronteiriça de Belarum e o comandante Derico é recebido efusivamente pelo centurião Silvano.
- Ave, comandante Derico, seja bem vindo a Belarum. Nós os estávamos esperando, nós torcemos muito para termos a sorte de vos receber.
- Ave, centurião Silvano. Eu creio ser desnecessário lembrá-lo de que nós não viemos aqui a passeio, mas para cumprir nossa sagrada missão dada por César, pelo Papa e por Deus.
- Certamente, certamente. Os editais de nosso Divino e Augusto César nos chegou em bom tempo, nós temos muitos problemas com os rebeldes e os Godos.
- Rebeldes? Conte-me mais sobre eles.
- Meu senhor, é com vergonha que devo vos dizer que o governador comandante Lapidatus, nomeado por César para cuidar desta coorte e desta região, não apenas rejeitou a Igreja de Roma como se associou ao pior tipo de culto a Satan. Após uma dura e árdua batalha, conseguimos cercar e executar os líderes, mas alguns seguidores debandaram para a floresta cerrada, onde ainda vivem fazendo escaramuças contra nossas patrulhas.
- Entendo. E quanto aos Godos?
- Meu senhor, na palavra de um legionário, os Godos são os demônios em pessoa. Existem partes da floresta que simplesmente devoram vivos os santos de Deus.
- Isso é o que veremos. Eu gostaria de conversar com as patrulhas que conheçam um pouco esta floresta e a nossos inimigos.
- Sim, senhor. Imediatamente, senhor.
Silvano ordena ao oficial do dia que se dê o toque de reunir para todas as patrulhas, trinta grupos com até cinco pessoas que escolhiam para si uma alcunha. Entre estas, estava a patrulha dos cães que sempre era posta em último lugar nessas reuniões. O centurião faz uma breve preleção, apresentando o nobre visitante que então faz seu discurso aos legionários.
- Legionários! Eis que vos dou uma oportunidade inigualável! Quem dentre vós se oferece para comandar, junto comigo e o centurião Silvano, o Exército Romano em uma campanha contra os rebeldes e os Godos?
Um grande burburinho toma conta do pátio, enquanto os grupos discutem entre si. Por mais que tenha vindo um enorme reforço, os legionários sabem por experiência própria que isso não é vantagem na floresta cerrada. As patrulhas foram diminuídas de dez para cinco homens exatamente para minimizar as baixas.
Domiciano sentiu um comichão, como se uma mão poderosa o estimulasse e se apossasse dele, o fazendo se aproximar e se apresentar, dizendo algo que ele mesmo não entendeu o significado naquele momento.
- Envia-me a mim, Senhor.
O velho Patmos corre desesperadamente até onde Domiciano estava, sendo seguido pelos demais da patrulha dos cães, sem entenderem muito o que estava ocorrendo.
- Meu senhor, perdoe o ímpeto desse jovem legionário, ele não está em seu juízo perfeito.
- Quem me dera ter mais iguais a ele! Quem és tu, legionário?
- Marco, meu senhor.
- Meu senhor, ele é muito jovem e está na pior patrulha desse campo. Ele mal tem barba, como pode comandar?
- Isso é verdade, Marco?
Mais uma vez, as palavras vêm aos lábios de Domiciano, sem que ele se dê conta do significado.
- Deus escolhe os pequenos para humilhar os grandes e os últimos serão os primeiros.
- Pois me parece que este jovem demonstra a unção de Deus sobre ele. E tu, velho legionário? Pretende continuar vivendo com uma alma morta? Ou prefere avivar a alma e morrer para o mundo, confessando a Yeshu Cresto como teu Senhor?
Patmos empaca, engole a seco, e fica suando frio. Baruc o cutuca, mais por instinto de sobrevivência.
- Aceita, pelas barbas de Ormuz! Eu não me incomodo de fingir ser Crestano se isto vai tornar-me rico!
Assim, diante do comandante Derico, há uma verdadeira conversão em massas daqueles legionários, que foram batizados pelos sacerdotes que estavam na campanha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Fera marcha

O Papa Lino está gravemente enfermo, mas assim como o finado Galba ele desejava construir o Reino de Deus na terra, então ele indica não só seu sucessor como endossa a decisão dos senadores e cônsules em deixar um César para cuidar das províncias e das campanhas no Ocidente e outro para fazer o mesmo no Oriente, certo de que assim a Evangelização seria espalhada por todo mundo.
Assim que Anacleto foi aclamado Papa na Santa Sede pelos bispos, estimulados pelos guardas pretorianos, este devolveu a gentileza coroando e ungindo Vitélio para cuidar do Ocidente e Vespasiano para cuidar do Oriente.
Diante do público foi lido então o edital onde a Igreja reconhece Roma como sua defensora e Roma, em consideração à Igreja, irá marchar para tirar os povos pagãos das trevas demoníacas e irá levar as palavras da Verdade e da Vida. Nem a Igreja, nem o Império descansariam enquanto não acabasse o domínio de Satan nesse mundo. Mas oculto do público, a Igreja e o Império deixaram bem divididos os resultados do butim.
Vitélio enviou quinhentas centúrias para se estabelecerem na região da Gália Setentrional, com o que tinha de mais forte no Exército Romano. Os legionários levaram em suas mochilas uniformes de inverno, seguindo logo atrás deles um carroção com espadas e lanças pesadas. No final, um enorme contingente de torres, catapultas e aríetes prontos para arrasarem totalmente uma cidade. Conforme o enorme batalhão marchava, recebia aplausos, elogios e louvores do povo. Em algumas vilas, milícias famélicas tentavam se misturar ao efetivo.
O comandante de tal armada parou por alguns instantes próximo da cidade de Ravena, enviando batedores até a cidade para que vissem se os boatos sobre a cidade condiziam com a realidade. Os batedores voltaram pouco tempo depois, felizes e eufóricos.
- Ave, comandante Derico. Nós vimos que a cidade de Ravena tem uma sólida e próspera igreja romana.
- Graças a Deus! Não há um herege, uma bruxa, uma rameira sequer?
- Aqui e acolá vimos coisas assombrosas, mas não vimos mal algum cometido por estes, que vivem harmoniosamente com o povo e os santos de Deus.
- Então é nosso dever apagar Ravena do mapa. Só há um Senhor, uma só Igreja, um só Império!
- Meu comandante, devemos matar a todos?
- Sim, todos! Do barão ao feirante, da debutante a viúva. Deus irá conhecer os seus.
A monstruosa máquina de matar, certa de suas convicções faz em Ravena uma pequena amostra ao mundo do que o aguarda. O pequeno exército local tenta uma tímida reação, enquanto das muradas os nobres pedem para que se poupem ao menos as mulheres e as crianças. Mas o Deus dos homens e o homem feito Deus despertou o ódio, a fúria e a sede de sangue da sombra da humanidade.
Por milênios, os piores sentimentos da humanidade foram alimentados até se tornar uma egrégora. A Religião Antiga manteve a sombra selada, a sombra é uma fraqueza da humanidade que tem encontrado condições propícias para se reerguer, fincar suas raízes na consciência e nunca teve escrúpulos em usar qualquer pessoa ou circunstância para existir, enganando o Espírito do Homem e usurpando o trono entre o mundo astral e o terreno.
Essa egrégora tem apenas que encontrar um indivíduo firmemente imbuído de uma missão religiosa, totalmente obstinado com suas convicções quanto à sua auto-imagem de santidade, virtude e divindade. Oportunidades assim ocorriam raramente, em povos e épocas específicas. A egrégora lambeu os beiços com os Israelitas ao se aproveitar de um ressurgente sentimento de patriotismo quando ainda eram servos no Egito, os iludiu com a liberdade e a promessa de um Reino apenas para que ela pudesse satisfazer as suas paixões enquanto os exiguia com privações. A egrégora teve o primeiro vislumbre de um Império teocrático regido por ela com os Persas, se apossando de mais um profeta visionário no momento exato em que os Persas estavam em uma encruzilhada existencial que os deixava frágeis e vulneráveis.
A egrégora quer agora dominar o mundo e seu plano é bastante simples. Como ela não pode resistir à luz do Espírito do Homem, a reflete para enganar a humanidade de que ela é Deus, ao mesmo tempo que projeta seus defeitos e real aparência em outra direção. A humanidade é enganada, tem a consciência adormecida para que esta mergulhe cada vez mais fundo na lama da sombra enquanto grita por salvação para um Deus externo, estranho e distante.
Seduzir a humanidade não é difícil, todas as pessoas em qualquer posição anseia pelos mesmos desejos que sempre tivemos desde nossos ancestrais que é riqueza, prestígio e poder a qualquer preço. Quanto maiores nos julgamos ser, mais facilmente mordemos a isca da armadilha e mais almas são sacrificadas em nome da egrégora, que fica cada vez maior e mais forte.
O batalhão passa por cima de Ravena como se nunca tivesse existido e o comandante Derico segue sua marcha com firmeza, certo de que Deus está satisfeito com ele e se permite a vaidade de sorrir com sua corajosa empreitada.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O grande rito

Conforme o sol se põe e a noite chega, milhares de Saxões e bruxos vão se juntando para celebrar a Festa da Colheita. O vale reúne tantas pessoas que é possível circundar a montanha de onde os Deuses desceram;
Enquanto Andros e Bran vão junto com outros sacerdotes e bruxos em busca dos materiais para a cerimônia, Ketar e as outras sidhes se preparam, juntamente com outras sacerdotisas e bruxas, para evocar os quadrantes e invocar os Deuses Antigos.
- Muito bem, minhas irmãs. Nós nos separaremos em nove grupos que irá conduzir nove círculos, para que todas as pessoas possam ouvir e participar do grande rito.
As sacerdotisas concordaram e separaram os grupos conforme a procedência e a sidhe da região coordenaria o círculo. Todas concordaram igualmente que caberia a Ketar a condução geral do grande rito, para manter o ritmo.
Quando as sidhes saem em direção ao público para congregá-los e prepará-los, chegam os bruxos com seus cestos cheios dos [itens necessários. O que agilizou a separação dos materiais para cada círculo.
Conforme as sidhes encontravam os habitantes de suas regiões, os deixavam a par da organização e da posição onde ficariam, de acordo com a direção da região em relação ao grande altar. Cada círculo foi marcado em um espaço de nove léguas, cada um com um altar menor no centro e os quadrantes assinalados. Ao redor de todos os círculos foi traçado um círculo maior e os quadrantes assinalados com grandes torres feitas com troncos.
O grande rito tem início com Andros empunhando sua espada para consagrar o círculo, evocando a presença dos ancestrais e das entidades da natureza para se postarem ao redor, a fim de que haja perfeito amor e perfeita confiança na cerimônia, sendo imitado pelos sacerdotes e bruxos dos demais círculos.
Ao encerrar a evocação, Andros se posta diante do quadrante norte e aguarda Ketar ficar ao lado dele com o incensário. Estando ela do seu lado esquerdo, ambos iniciam a abertura do véu entre os mundos, desenhando o sinal do Guardião da Torre Norte com a espada e evocando-o com o incenso. O mesmo é feito consecutivamente nos quadrantes leste, sul e oeste, mudando apenas os sinais e as evocações.
Novamente diante do quadrante norte, Andros e Ketar passam a invocar a Deusa e o Deus, fazendo os sinais e pronunciando as palavras sagradas, na direção do firmamento e na direção do solo. Uma suave névoa luminescente de cor púrpura surge do altar central e se expande até o horizonte.
Com as palavras sagradas, Andros incorpora o Deus e Ketar incorpora a Deusa, para então ocorrer o Hieros Gamos.
O Deus falou então para toda a humanidade.
- Meus filhos, cantem, dancem, façam música e amor pois o Inverno começou. O Deus dos homens e o homem feito Deus começará sua marcha pelo mundo para espalhar a desolação. Vós nos chamareis, mas não vos atenderemos porque vós colocastes uma separação entre nós. Vossas almas anseiam pelo rigor ascético, a dura certeza da doutrina, a revelação por escrituras. Vós temeis os ciclos da natureza e vós pretendeis eternizar-vos com um Deus idealizado. Vós vivereis e vos fartareis do medo, da ignorância e do terror pelas mãos deste Deus e dos reis que vós coroastes. Vós rejeitastes este mundo e este mundo refletirá vossa rejeição até que a Religião Antiga retorne. Assim vós quisestes, assim será feito.
Em um turbilhão de luz, Ketar se eleva para manifestar a presença e as palavras da Deusa.
- Meus queridos, meus amados! Vós ireis passar por um período de sombras terríveis, mas não vos desanimeis! Assim como certo foi o fim do Verão, a passagem do Outono e a chegada do Inverno, certa é a esperança da Primavera e o retorno do Verão! Verdadeiramente, o trono foi entregue a um Deus estranho, ciumento e vingativo. Por esta bandeira, o mundo irá mergulhar em sangue, povos irão sumir e muitas almas irão se perder. Em busca de respostas e certezas fora de vós, ireis procurar a salvação para aliviar tanto sofrimento e serão devorados pela Besta deste tempo. Vós ireis abandonar o êxtase pela vida pela privação pela virtude. Nossos templos serão escondidos, enterrados, demolidos e nossos nomes serão difamados, deturpados, degenerados. Nós só retornaremos depois que vós mesmos vos libertardes desses grilhões, recuperarem a razão, porem os pés em minha face e redescobrirem o sagrado dentro de vós mesmos e neste mundo. Assim seja!
O Deus abandona Andros e volta ao Submundo. A Deusa, ao se retirar, leva consigo Ketar, deixando no lugar dela uma árvore sagrada com runas gravadas advertindo que quando a árvore fosse cortada, seria o fim da humanidade.
Bran chora por causa de sua mãe, mas leva hidromel a Andros para que ele se recupere as forças. Muito em breve a batalha começará.