terça-feira, 20 de novembro de 2007

Batismo de sangue

No dia seguinte, o comandante Derico, juntamente com o centurião Silvano, entrou com o batalhão na floresta cerrada, seguindo a trilha que os novos sargentos indicavam, na formação que Domiciano havia recomendado, usando as máquinas de guerra para remover as árvores, pedras ou rochas que estivessem no caminho.
- O que tu achas da estratégia de Marco, centurião Silvano?
- Eu não vi formação como esta, comandante e receio que essa incursão em grupos de nove, em colunas distantes a nove passos, pode propiciar os ataques de emboscada.
- Eu fico intrigado com o uso das lanças mais curtas e leves nas fileiras secundárias e a batida forte e ritmada dos gládios nos escudos nas fileiras primárias. Como poderemos cercar e surpreender o inimigo fazendo tanto barulho?
- Eu acho que o barulho serve mais para provocar do que assustar. Ele deve estar contando que os rebeldes tentem atacar de surpresa os grupos, para então cercá-los.
- Eu gostei da última recomendação. Ele disse aos legionários que mantivessem a formação em qualquer circunstância.
Distante da conversa entre os superiores, no fronte das primeiras fileiras, Domiciano segue os sinais que ele conhecia, sabendo que era uma questão de tempo antes de ter algum ataque ou de se depararem com um acampamento rebelde.
O soar de um chifre anunciou o ataque esperado e logo a Segunda fileira avança contra os rebeldes, pelos flancos com as lanças, dando à fileira da frente um corredor seguro para avançar contra o bloco central. Domiciano contava com essa formação militar no ataque dos rebeldes, uma vez que eles foram treinados pelo finado centurião Lapidatus.
Uma Segunda carga de rebeldes aparece mais atrás, com as lanças mais longas e pesadas. As colunas recuam para atrair a Segunda carga mais para frente, até que fiquem na mira das máquinas de guerra, que estraçalham a segunda carga.
Assim, palmo a palmo, o exército faz sua incursão até os acampamentos, que são cercados e atacados com as catapultas carregadas com o fogo grego. Mas a preocupação central de Domiciano estava nos Godos e nas estratégias de batalha destes. As pesadas máquinas de guerra fazem um bom trabalho, ampliando a trilha e apoiando a formação, mas limitam muito o alcance e a velocidade da campanha.
Uma saraivada de flechas incendiárias zunem por entre as árvores e acertam com precisão as máquinas de guerra, mostrando a presença de algum exército organizado bem próximo. Uma carga de soldados barbudos, sem uniforme, atacando a coluna romana com machados, sem um foco ou formação indica que, enfim, se combate os Godos. Seguindo as instruções de Domiciano, uma terceira fileira se forma, composta por arqueiros que atingem os soldados mais adiantados e uma quarta fileira se forma por lanceiros que atinge o meio da carga com as lanças mais longas e pesadas.
Depois deste contra ataque, a primeira e Segunda fileiras avançam em formação contra o restante da carga, mas não perseguem os soldados Godos quando estes se dispersam.
Com poucas baixas e perdas materiais, o exército finalmente chega a uma cidade fortificada, sem dúvida construída pelos Godos devido aos inúmeros cadáveres de soldados romanos que enfeitam a paliçada.
Aos poucos, as máquinas de guerra se posicionam e despejam sem misericórdia sua carga letal na cidade fortificada. Com parte da paliçada destruída ou incendiada, os habitantes saem com armas improvisadas para combater os Romanos, sem medo da luta ou da morte.
Contra ancinhos, lanças; contra foices, espadas; contra um ataque feérico e desorganizado, a movimentação fria e cirúrgica; contra homens, mulheres, jovens e crianças, solados forjados e acostumados à batalha. Quando o comandante Derico e o centurião Silvano chegam ao sítio, a cidade fortificada está destruída e tomada, os soldados se divertem com os prisioneiros e repartem o butim.
Domiciano surge do meio do campo de batalha, todo coberto de sangue e exausto, para fazer um pedido inusitado ao comandante, sem ter muita noção do significado de seu ato.
- Meu senhor, nós vencemos por Deus. Eu vos peço que seja erguida uma Igreja Romana nesta cidade e que sobre as ruínas deste povo seja rezada uma missa pela conversão dessas almas perdidas.
- Meu jovem, não apenas isto será feito como também eu te indicarei para a Guarda Pretoriana, para que sua carreira seja um exemplo a todos os que servem a Deus!

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