sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Fera marcha

O Papa Lino está gravemente enfermo, mas assim como o finado Galba ele desejava construir o Reino de Deus na terra, então ele indica não só seu sucessor como endossa a decisão dos senadores e cônsules em deixar um César para cuidar das províncias e das campanhas no Ocidente e outro para fazer o mesmo no Oriente, certo de que assim a Evangelização seria espalhada por todo mundo.
Assim que Anacleto foi aclamado Papa na Santa Sede pelos bispos, estimulados pelos guardas pretorianos, este devolveu a gentileza coroando e ungindo Vitélio para cuidar do Ocidente e Vespasiano para cuidar do Oriente.
Diante do público foi lido então o edital onde a Igreja reconhece Roma como sua defensora e Roma, em consideração à Igreja, irá marchar para tirar os povos pagãos das trevas demoníacas e irá levar as palavras da Verdade e da Vida. Nem a Igreja, nem o Império descansariam enquanto não acabasse o domínio de Satan nesse mundo. Mas oculto do público, a Igreja e o Império deixaram bem divididos os resultados do butim.
Vitélio enviou quinhentas centúrias para se estabelecerem na região da Gália Setentrional, com o que tinha de mais forte no Exército Romano. Os legionários levaram em suas mochilas uniformes de inverno, seguindo logo atrás deles um carroção com espadas e lanças pesadas. No final, um enorme contingente de torres, catapultas e aríetes prontos para arrasarem totalmente uma cidade. Conforme o enorme batalhão marchava, recebia aplausos, elogios e louvores do povo. Em algumas vilas, milícias famélicas tentavam se misturar ao efetivo.
O comandante de tal armada parou por alguns instantes próximo da cidade de Ravena, enviando batedores até a cidade para que vissem se os boatos sobre a cidade condiziam com a realidade. Os batedores voltaram pouco tempo depois, felizes e eufóricos.
- Ave, comandante Derico. Nós vimos que a cidade de Ravena tem uma sólida e próspera igreja romana.
- Graças a Deus! Não há um herege, uma bruxa, uma rameira sequer?
- Aqui e acolá vimos coisas assombrosas, mas não vimos mal algum cometido por estes, que vivem harmoniosamente com o povo e os santos de Deus.
- Então é nosso dever apagar Ravena do mapa. Só há um Senhor, uma só Igreja, um só Império!
- Meu comandante, devemos matar a todos?
- Sim, todos! Do barão ao feirante, da debutante a viúva. Deus irá conhecer os seus.
A monstruosa máquina de matar, certa de suas convicções faz em Ravena uma pequena amostra ao mundo do que o aguarda. O pequeno exército local tenta uma tímida reação, enquanto das muradas os nobres pedem para que se poupem ao menos as mulheres e as crianças. Mas o Deus dos homens e o homem feito Deus despertou o ódio, a fúria e a sede de sangue da sombra da humanidade.
Por milênios, os piores sentimentos da humanidade foram alimentados até se tornar uma egrégora. A Religião Antiga manteve a sombra selada, a sombra é uma fraqueza da humanidade que tem encontrado condições propícias para se reerguer, fincar suas raízes na consciência e nunca teve escrúpulos em usar qualquer pessoa ou circunstância para existir, enganando o Espírito do Homem e usurpando o trono entre o mundo astral e o terreno.
Essa egrégora tem apenas que encontrar um indivíduo firmemente imbuído de uma missão religiosa, totalmente obstinado com suas convicções quanto à sua auto-imagem de santidade, virtude e divindade. Oportunidades assim ocorriam raramente, em povos e épocas específicas. A egrégora lambeu os beiços com os Israelitas ao se aproveitar de um ressurgente sentimento de patriotismo quando ainda eram servos no Egito, os iludiu com a liberdade e a promessa de um Reino apenas para que ela pudesse satisfazer as suas paixões enquanto os exiguia com privações. A egrégora teve o primeiro vislumbre de um Império teocrático regido por ela com os Persas, se apossando de mais um profeta visionário no momento exato em que os Persas estavam em uma encruzilhada existencial que os deixava frágeis e vulneráveis.
A egrégora quer agora dominar o mundo e seu plano é bastante simples. Como ela não pode resistir à luz do Espírito do Homem, a reflete para enganar a humanidade de que ela é Deus, ao mesmo tempo que projeta seus defeitos e real aparência em outra direção. A humanidade é enganada, tem a consciência adormecida para que esta mergulhe cada vez mais fundo na lama da sombra enquanto grita por salvação para um Deus externo, estranho e distante.
Seduzir a humanidade não é difícil, todas as pessoas em qualquer posição anseia pelos mesmos desejos que sempre tivemos desde nossos ancestrais que é riqueza, prestígio e poder a qualquer preço. Quanto maiores nos julgamos ser, mais facilmente mordemos a isca da armadilha e mais almas são sacrificadas em nome da egrégora, que fica cada vez maior e mais forte.
O batalhão passa por cima de Ravena como se nunca tivesse existido e o comandante Derico segue sua marcha com firmeza, certo de que Deus está satisfeito com ele e se permite a vaidade de sorrir com sua corajosa empreitada.

Nenhum comentário: